domingo, 28 de fevereiro de 2010

Técnicas de Manejo das Aves de Gaiola

Por
Paulo Rui de Camargo

Trinca-ferro Nelson Gonçalves - Criatório Guarnieri

Um dos itens mais importantes na manutenção e procriação das aves de gaiola, diz respeito aos procedimentos e a maneira certa de implementar um manejo adequado.

Entende-se por manejo adequado a utilização racional e a observância de todos os requisitos básicos, todo cuidado e gerenciamento corretos, bem como todas as técnicas de proteção que o ornitófilo deve observar e executar para um bom tratamento de seus animais de estimação.

Para os passeriformes, o manejo envolve:
  1. Alojamento/abrigo;
  2. Limpeza e higienização;
  3. Dietas/alimentação;
  4. Profilaxia/cura de doenças;
  5. Locais onde as gaiolas irão ser colocadas;
  6. Companheiros de reprodução e estratégias de criação;
  7. Possibilidades das aves criarem a prole;
  8. Procedimentos de lida, limpeza e trato.

1 - No que tange ao Alojamento / abrigo, deve ser observado onde a ave irá ser alojada. Se for apenas um pássaro, que irá ser mantido isolado, por exemplo, só para cantar, ele pode ser instalado numa gaiola, compatível com o seu tamanho. Se for um coleirinho, uma gaiola pequena. Se for um sabiá, uma gaiola maior e, assim por diante. Se o objetivo for a criação monogâmica (um casal por gaiola), este casal deverá ficar confinado em uma gaiola criadeira, com espaço suficiente para estes moradores. Se a criação for poligâmica (um macho para várias fêmeas), cada fêmea deverá ocupar sua própria gaiola criadeira e, o macho, a sua. Os reprodutores serão unidos quando o macho estiver fogoso e cantando e, a fêmea, pedindo gala. Depois da gala, o macho volta para a sua gaiola. Esta operação geralmente é feita durante três ou quatro dias para que todos os ovos sejam fertilizados. Toda gaiola deve ter as acomodações necessárias de molde a atender as necessidades especiais das espécies nela mantida. As melhores gaiolas criadeiras são aquelas que têm grade acima do piso ou da bandeja de fundo, evitando que as aves tenham contato direto com os excrementos. Em criações domésticas, as gaiolas devem ser penduradas, em suportes, nas paredes de um cômodo, de uma varanda ou de um quarto especialmente destinado a esta finalidade. Jamais pendurar as gaiolas em paredes emboloradas, mofadas e úmidas, ou em corredores, onde haja vento frio, constante e encanado. Estes fatores negativos prejudicam a saúde das aves. As gaiolas devem ser penduradas uma ao lado da outras, de maneira que os reprodutores não se visualizem. Nos lados das gaiolas, coloca-se um anteparo, um tambique de madeira, de chapa de metal, ou divisórias de plástico para impedir a visão. Durante o período reprodutivo os casais não podem ter acesso visual a outras gaiolas. Se os reprodutores enxergarem-se uns aos outros a criação fica inviabilizada (devido ao instinto territorialista, belicoso neste período), pois os reprodutores passam a maior parte do tempo hostilizando-se mutuamente. Os machos brigam com suas própria fêmeas, estas podem não fabricar o ninho ou mesmo destruí-lo depois de pronto, além da morte dos filhotes pelos pais (por falta de alimentação, ou porque são rejeitados ou porque acabam sendo expulsos e jogados fora do ninho).

2 - O item limpeza/higienização/desinfecção é fundamental na manutenção de qualquer animal cativo. Tudo o que se relacionar à manutenção dos pássaros e aos utensílios/equipamentos usados precisam ser escrupulosamente limpos, assim também o local, as gaiolas, os bebedouros, a água servida, os alimentos (sementes, farinhada, frutas, legumes, verduras, grit (mistura de areia/casca de ovo triturada/farinha de ostra e sais minerais), os comedouros, vasilhas, poleiros, os ninhos, as caixas-ninho, os materiais de sua confecção). Sem uma higienização bem feita, nenhuma ave poderá manter-se em condições de plena saúde e, obviamente sucesso na criação ficará na dependência da eventualidade. A limpeza das gaiolas deve começar pela bandeja do fundo. Retiram-se os papéis que revestem o piso (se eles forem utilizados) ou limpam-se as fezes e outros resíduos com uma espátula e uma esponja, tudo para evitar que os dejetos ou mesmo a poeira acumulados venham a contaminar os alimentos e a água de beber. Depois da limpeza do piso, pode-se trocar as sementes, a ração e as farinhadas e, por último, a água. Os comedouros, bebedouros, grades e pisos devem ser limpos e desinfetados (exemplo: cloro diluído em água) pelo menos de três em três dias. Isto é fundamental. Os pássaros devem tomar banhos freqüentes, de preferência uns quatro por semana, no mínimo. Durante a época de muda de penas, o banho deve ser diário. Se a ave não quiser tomar banho, o criador-ornitófilo poderá borrifar água nas penas, por meio de um borrifador/espergidor. Não esquecer dos banhos de sol, nas primeiras horas da manhã. Isto é extremamente benéfico para a saúde do animal. De vez em quando um passeio com o pássaro ou a mudança da gaiola de um lugar também influencia na melhoria da atividade e no comportamento. Estes passeio ou mudanças de despertam a agilidade, ajudam a "esquentar" um pássaro que estava inativo, indolente ou "frio", sem fogosidade ou tenha parado de cantar.

3 - O tópico dieta/alimentação também constitui outro ponto primordial, que jamais poderá ser desprezado, pois dele irá depender a higidez do plantel. A comida a ser servida deverá ser a melhor, a mais saudável, a mais fresca e limpa possível. Observar os prazos de validade dos produtos e suas respectivas procedências. Nunca esquecer as especializações de dietas, como, por exemplo, entre os pássaros frugívoros e insetívoros.  

4 - Sobre profilaxia e doenças, é necessário alertar para alguns detalhes importantes e indispensáveis. Toda ave que entrar no aviário deve passar por uma quarentena. Nesta etapa, há que se proceder a uma observação criteriosa das aves para verificar se, eventualmente, apresenta alguma anomalia na saúde. Neste período, o criador fará um controle diuturno, observando atentamente o comportamento do animal recém introduzido. Além disso, deverá aspergir um antiácaro/piolho, bem assim um vermífugo para matar qualquer parasita que esteja incrustado nas penas e eliminação de vermes do intestino. De outra parte, neste período, o orniticultor deve colocar diariamente um recipiente para banho. Logo após os pássaros haver feito a limpeza das penas, a banherinha pode ser removida em seguida, evitando-se que o líquido remanescente, quase sempre impuro, possa ser ingerido. Sintomas anômalos no comportamento, na postura e mesmo a inatividade ou atividade diferente do pássaro devem ser prontamente investigados e as causas combatidas imediatamente, com remédios específicos. E caso de dúvida sobre qual procedimento correto ou medicação apropriada, o melhor é consultar um veterinário, de preferência especializado em aves, inclusive com a realização de exame de fezes, não só para detecção da enfermidade, como para posterior tratamento, com medicamentos condizentes.

Aqui cabe outro aviso. Trata-se dos poleiros.

O melhor, no meu entendimento, é substituir os poleiros industrializados, todos do mesmo diâmetro, por outros (no especial ramos e galhos de árvore), escolhendo três diâmetros distintos: um poleiro mais grosso, um médio e outro fino. Isso evita deformações nos tarsos, dedos e unhas, inclusive futuros problemas nas articulações, nervos e músculos, já que poleiros, todos iguais, do mesmo diâmetro, acabam causando lesões articulares e crescimento exagerado das unhas.

5- A respeito do quinto item, sobre o local onde as gaiolas irão ser posicionadas, é bom lembrar que este lugar deve respeitar as posições do sol durante o dia. O cômodo onde as aves irão ficar alojadas deve ter um telhado para proteção contra a intensidade dos raios solares, do sereno e da chuva. Deve, ainda, possuir janelas e portas teladas, para evitar a fuga de pássaros e impedir a entrada de aves silvestres (especialmente pardais e rolinhas), que podem introduzir doenças e piolhos ou, ainda, moscas, pernilongos, ratos baratas, lagartixas, aranhas e outros animais nocivos. De outro lado, o local merece ser arejado, com temperatura mais ou menos estável (entre 23/28 graus centígrados), com bastante claridade (sem insolação direta por muito tempo).
O ciclo de iluminação é essencial durante a criação, pois tanto o excesso como a falta de luminosidade têm reflexos diretos no ciclo reprodutivo e nos rituais de acasalamento, especialmente nas fêmeas, para início da postura. O local necessita, outrossim, ser seco (sem excesso de umidade) e isento de correntes diretas de vento encanado. O ar quente e viciado, sem uma eficiente ventilação, além de uma demasiada umidade, constitui fatores desfavoráveis à manutenção e a criação das aves em cativeiro. Outros pontos problemáticos são os odores e os cheiros desagradáveis, os quais precisam ser eliminados, com adequada e constante renovação de ar puro. Por fim, o piso e as paredes devem ser constituídos de materiais que facilitem a limpeza e a lavagem.

6 - Companheiro de reprodução
7 - Estratégias de criação.

Bem antes do início dos períodos procriatórios (entre setembro/março) os reprodutores precisam repousar, ser bem alimentados e vermifugados para terem boa saúde durante a época de cria. Outro conselho: o passarinheiro deverá escolher, para servir de reprodutores, seus melhores pássaros. A escolha deve recair nos exemplares que apresentarem os melhores dotes, seja no porte, postura, aspecto das penas, agilidade, fogosidade, fibra, valentia e, principalmente, a qualidade do canto dos machos. Evitar sempre aves doentes, de qualidades inferiores, medrosas, com penas sem viço e impróprias para a reprodução. Na criação doméstica a linhagem e a seleção genética são importantes.A perfeição haverá de ser o requisito fundamental, a mola mestre na escolha dos reprodutores. Em certas espécies de pássaros (por exemplo: bicudos e curiós), um fator básico indispensável a ser considerado é a qualidade do canto, bem como a sua repetição. Não esquecer, de outra parte, que as vocalizações dos machos têm papel preponderante na criação. O canto dos machos exerce um poderoso efeito excitante do sistema nervoso das fêmeas, mudando o estado fisiológico dos seus cérebros, aumentando os níveis de hormônio que, por sua vez, acabam influenciando no comportamento sexual-reprodutivo. Por isso, elas precisam ouvir os machos cantar. As vocalizações acabam acelerando e desencadeando, na época própria da procriação, os processos reprodutivos. A possibilidade de os pássaros criarem a prole e outro tema basilar. De nada adianta ter bons reprodutores, local adequado, gaiolas e recintos apropriados, se não forem conhecidas as regras e os procedimentos capitais de criação de pássaros em cativeiro. Nada deve ser feito de orelhada, sem planejamento e sem conhecimentos especializados.
Muita gente tenta criar, mas desconhece por completo os rendimentos mínimos do manejo procriatório. Por isso, a criação doméstica muitas vezes fracassa ou fica por conta do acaso. Assim, o criador consciente tem obrigação de procurar informações, de ler, estudar, pesquisar, visitar aviários de outros criadores, a fim de observar e obter os subsídios necessários sobre a espécie que pretende criar. Cada gênero e cada espécie de pássaro tem suas peculiaridades próprias na criação. Desta forma, não adianta arriscar, gastar tempo e dinheiro à toa, porque sem base e sem o sólido apoio de conhecimentos, o futuro é incerto e, quase sempre, desastroso. Aí o desânimo toma conta do criador.

8 - O oitavo e último item, isto é os procedimentos da lida, trato e limpeza são também itens que podem ser mais bem executados, minimizando o trabalho do ornitófilo. A lida é o modo, a maneira como os nossos animaizinhos de estima são diariamente examinados, zelados, manejados, nutridos, eventualmente manipulados, curados e medicados. A lida deve ser racional, um passatempo gratificante. Jamais encarada como encargo obrigacional intendente, uma incumbência ou um fardo maçante. O prazer deve substituir a chatice. A lida, o trato e a limpeza devem ser realizados com calma, sem atropelos, sem barulhos desnecessários e gestos bruscos. Ela pode ser cumprida de forma a economizar energia e tempo do passarinheiro. Por exemplo: encher e trocar a água dos bebedouros. Esta troca não deve ser feita gaiola por gaiola. O melhor procedimento é possuir um número dobrado de bebedouros. Se o passarinheiro tiver dez gaiolas, deve possuir mais dez bebedouros de reserva. Ele irá encher, de uma única vez, os dez bebedouros reserva e os colocar em cada gaiola. Esta será apenas uma operação. As mãos ficarão molhadas uma vez só.
Os outros bebedouros usados serão imersos em uma vasilha ou balde de plástico, com água clorada. O próprio cloro higieniza os bebedouros, os quais, no dia seguinte, estarão limpos para serem usados novamente. Estes procedimentos ergonômicos agilizam o processo de lida, economizando, com o dito acima, energia e tempo do criador, facilitando o serviço. Este é apenas um exemplo de como a lida, limpeza e trato podem transformar em tarefas mais racionalizadas em menos cansativas, especialmente para empregados domésticos, que adoram executar o mínimo de trabalho, utilizando a lei do menor esforço como paradigma de suas atividades. O tema deste artigo é repleto de procedimentos que poderiam ser mais bem esclarecido para propiciar mais informações complementares ao aviculturista iniciante. 

Revista Passarinheiros - setembro de 2.001.

Fonte: http://www.bicudario.com.br/artigo001.htm

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